Alessandra prefere permanecer em sua residência no Morro dos Cabritos mesmo com riscos
Foto: BBC Brasil
Enchentes e deslizamentos já são parte integrante da temporada de
chuvas no Brasil. A quase um ano da maior tragédia climática do País, as
autoridades dizem, no entanto, estarem melhor preparadas para lidar com
situações de emergências.
Às vésperas de mais um verão chuvoso, serviços de Defesa Civil trabalham
para minimizar o poder inevitável dos temporais, sobretudo, para
reduzir o número de mortes. Em janeiro deste ano, mais de mil pessoas
morreram na região serrana do Rio de Janeiro. A tragédia serviu como
alerta para algumas administrações municipais, como a prefeitura do Rio,
que instalou sirenes em 66 comunidades cariocas.
"Nosso principal objetivo é salvar vidas e por isso a cidade do Rio de
Janeiro investiu em um moderno radar meteorológico, para nos alertar da
chegada de chuva, e na instalação de sirenes para que a população possa
ser alertada e busque abrigo", explicou o subsecretário de Defesa Civil
do município, Márcio Motta. As sirenes foram instaladas em áreas
classificadas como de alto risco de deslizamento. Elas são acionadas
três horas antes da chegada de fortes tempestades.
Equipamentos similares também foram colocados em cidades da região
serrana do Rio, bem como bairros da cidade de São Paulo sujeitos a
enchentes, como a Freguesia do Ó, na zona norte da capital paulista.
Moradia
Embora tenha havido significativo investimento nos sistemas de alarme, o
problema fundamental permanece: milhões de brasileiros ainda vivem em
áreas perigosas como morros sujeitos a deslizamentos ou vales onde
inundações são inevitáveis.
O especialista em gestão de riscos da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, Moacyr Duarte, diz que não há dados confiáveis sobre o número
exato dos brasileiros que vivem em situação de risco como essa. "O que a
gente percebe quando vê imagens desses desastres, como nas enchentes em
Santa Catarina ou nos deslizamentos na região serrana do Rio, é que há
muitas ocupações em lugar de risco evidente. Ou então intervenções
humanas que criam riscos, como cortar barrancos de qualquer jeito",
observa.
Segundo Duarte, "existe uma preocupação muito grande e correta hoje em
dia com a avaliação dos impactos que um empreendimento pode ter na
natureza". "Mas ainda não nos acostumamos a olhar com mais atenção para
os impactos da natureza sobre os empreendimentos", observa.
Morros cariocas
Na cidade do Rio de Janeiro, grande parte do risco está nas comunidades
construídas nos morros em condições precárias e sem planejamento. Em
abril de 2010, quase 70 pessoas morreram em deslizamentos nas favelas da
cidade.
"Um levantamento da GeoRio indicou que 117 comunidades no Rio de Janeiro
incluem áreas de alto risco, onde vivem 18 mil famílias. Retirar as
pessoas desses locais ou fazer obras que os tornem seguros é um trabalho
essencial, mas não é uma coisa que possa ser feita num passe de
mágica", diz Márcio Motta. "Por isso nossa prioridade agora é salvar
vidas."
A auxiliar de enfermagem Alessandra de Oliveira, 31 anos, mora em uma
dessas 18 mil residências que passam todos os verões sob a constante
ameaça de deslizamentos. No verão passado, a ameaça tornou-se realidade:
numa madrugada de chuva intensa um pedaço do barranco no Morro dos
Cabritos, na zona sul, deslizou arrastando pedras e plantas. Por sorte, a
parede do quarto em que ela dormia resistiu e ninguém saiu ferido.
A prefeitura interditou a casa de Alessandra, mas ela continua vivendo
no local, sob tensão frequente, sempre que nuvens escuras cobrem o Morro
dos Cabritos. "Mesmo que tenha casa do governo para gente, vai ser
muito longe, nos subúrbios da cidade. Então a gente prefere ficar aqui
mesmo", diz ela, que vive em Copacabana e prefere continuar morando
próximo do trabalho.
"Meu sonho mesmo seria que o governo fizesse um muro de contenção no
barranco para que a gente pudesse viver em segurança aqui mesmo", diz.
Pesquisa
A fim de minizar o risco de pessoas como Alessandra, o Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) trabalha na combinação de dados
climáticos com informações detalhadas do terreno de modo a estabelecer
quais são as áreas de maior risco nas cidades.
"Nosso objetivo é poder dizer às autoridades com mais segurança o que
pode acontecer caso uma chuva forte ocorra em São Paulo, no Rio de
Janeiro e em outras grandes cidades brasileiras. O que precisamos é
conhecer a realidade pluviométrica (o volume de chuvas) de cada área
para combinar com dados sobre o solo, como ocupação humana e
estabilidade, para saber direito qual o tamanho do problema", explica o
diretor-geral do Inpe, Gilberto Câmara.
Neste ano o Inpe começou a operar com plena capacidade um
supercomputador para análises climáticas - batizado de Tupã - para
evitar que o governo e a população sejam pegos de supresa por desastres
naturais. "Acredito que esse ano já será possível sentir uma
significativa evolução na qualidade dos dados metereológicos em relação
ao que tínhamos no ano passado", diz Câmara.

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